sábado, 29 de agosto de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
começo hoje o blog que pretende ser um espaço de expressão de idéias, uma reflexão pessoal sobre fatos vividos, percebidos, observados. Gostaria que dialogassem comigo e contribuissem para que o blog fique interessante e menos "chato" possível.
Neverland: a Terra do Nunca
O autor inglês J. Barrie, em 1904, criou a fantástica história de Peter Pan, o menino que se recusava a crescer e preferiu viver na Terra do Nunca, ao invés de ficar com os outros meninos, e com eles enfrentar a realidade do crescimento.
Se, como diz Barrie, cada vez que uma criança fala que não acredita em fadas uma delas cai no chão e morre, é melhor acreditar nelas. E Michel Jackson parecia confiar que elas existiam, e que se pode viver para sempre na Terra do Nunca.
Como J. Barrie, Michel Jackson tinha uma imaginação e um talento peculiares. O gosto pela infância e o desejo de eternizá-la através de uma bela história infantil, por um lado, ou de viver o personagem de Peter Pan, por outro, foram as marcas que eles nos deixaram.
A transformação física de Michel Jackson era acompanhada pela mídia em todos os seus detalhes. O maior astro pop, que mobilizava multidões que o admiravam e o imitavam, foi um fenômeno comparado ao de Elvis Presley, mas com inúmeras diferenças. Michel Jackson reinventou-se fisicamente graças às tecnologias cirúrgicas, e inventou passos de dança que muitos jovem copiam pelas ruas e festas em todo o mundo. Podem-se ver garotos se contorcendo próximos ao chão em Nova York, Paris e Rio de Janeiro. O fenômeno da venda de CDs de Michel acompanhou a mutação física de muitos meninos. Com roupas negras e corpos magros, eles pareciam gritar: nós acreditamos em fadas!
Se Diana Ross era para Michel Jackson uma fada madrinha, um ídolo a copiar, ele próprio se tornou o ídolo maior de uma geração de adolescentes. Como poderiam ficar indiferentes àquele que ousou viver em Neverland e ser eternamente criança? Sua casa era um parque de diversões, e sua vida uma sucessão de novidades. Ele casou-se com a filha de Elvis Presley, tornou-se pai três vezes, pendurou um bebê de sua janela, queimou os cabelos no ensaio de um show, enfrentou denúncias e processos de pedofilia, ficou milionário e quase faliu. Nada que fazia nos era indiferente. Mas, por que? Só porque vivia intensamente o personagem que criou para si próprio? Talvez sim. Por mais estranha e exótica que fosse a sua aparência e a sua vida, milhões o amavam e desejavam ser como ele. Será que todos estes fãs, que hoje choram a sua morte, também não gostariam de poder se recriar? Sair do anonimato, de uma infância pobre, e ficar no centro das atrações? Não será isto que ele, com suas extravagâncias, queria nos dizer: acredite nos seus sonhos, eles podem se realizar?
O inventor da história de Peter Pan inicia escrevendo que, quando o primeiro bebê sorriu, milhares de pedaços de risos se espalharam, e deles nasceram as fadas. Assim, as crianças sabem que, apesar dos capitães ganchos e dos temíveis jacarés que as espreitam, existe uma Sininho que as protege, que as faz voar para longe do mundo adulto, o qual não conhece esta magia.
Quando Michel Jackson morreu, um sorriso de criança se apagou, e talvez também uma fada tenha caído morta no chão. A sua última canção, a qual ensaiava exaustivamente dois dias antes de morrer, dizia: they really don’t care about us (eles realmente não se importam conosco). Ele parecia constatar que este mundo essencialmente pop, pós-moderno, ou o que mais digamos sobre a sociedade globalizada, é um mundo que realmente não se importa conosco que o recusamos, que não compartilhamos seus valores. No entanto, existiu um lugar para fugir dele. Este lugar chama-se Neverland e Michel Jackson pôde, em vida, construir este sonho. Assim, se você quiser, crie a sua Terra do Nunca, ou tente transformar a terra em que vive num lugar melhor, onde os sorrisos possam se espalhar como o pó de pirlimpimpim.